
Que inteligência artificial tem sido o tema do momento, não há dúvidas. Há quem diga que vai roubar nossos empregos, que vai dominar o mundo estilo animatrix, e outros que acreditam que as ferramentas de IA ajudam e complementam o trabalho. Não importa qual lado você esteja, uma coisa é fato: a IA veio e não vai embora.
Na área de pesquisa e UX Research, eu costumo ser daquelas que acredita que a IA vem para impulsionar o nosso trabalho. Pode ser que algumas coisas mais manuais e automáticas do nosso trabalho no geral serão eliminadas, mas o que restar será elevado a uma potência extrema com a ajuda da inteligência artificial. Bem, tenho usado algumas ferramentas para o dia a dia de pesquisadora e posso dizer que, para algumas coisas, tem facilitado e aprimorado bastante. E esse texto é exatamente para compartilhar como tenho usado e de que maneira tem elevado meu potencial como pesquisadora.
Antes de seguirmos, acho que vale um disclaimer: não adianta fazer pesquisa com ferramentas de IA se não temos uma base sólida em pesquisa e metodologias. A ideia de usar essas ferramentas é complementar e auxiliar no processo. Exatamente por isso, é essencial que quem está dirigindo o processo entenda o início, o meio e o fim. Claro, ferramentas de IA podem auxiliar no entendimento desse processo, mas sem alguém que entenda as decisões de negócio específicas da sua empresa e as particularidades culturais do contexto dos pesquisados, ou não tenha um olhar crítico com rigor metodológico, fica mais difícil garantir uma entrega de pesquisa de qualidade.
A seguir compartilho 4 potenciais que vejo do uso de inteligência artificial no dia a dia de fazer pesquisa.
Uma das coisas que a IA tem me facilitado bastante é o debriefing de pesquisas quali. Principalmente para quem gosta de ler uma transcrição bem feita, além de conseguir encontrar quotes mais facilmente, dependendo da ferramenta que você utiliza é possível interagir com ela como se criasse uma persona daquele cliente.
É aí que vem o poder da pesquisadora: saber como interagir e quais perguntas fazer. No final tem tudo a ver com como fazer um bom prompt. E claro, lembre-se que a maioria das ferramentas de IA são passíveis de falha, então é sempre bom fazer essas interações após rever a gravação ou logo após realização das entrevistas, de modo que você seja capaz de lapidar as respostas caso surja algo muito díspar do que você observou.
Todo mundo sabe que nem sempre todas as pessoas envolvidas num projeto conseguem participar do dia a dia de entrevista - por mais que seja uma boa prática, acabam não conseguindo driblar outras demandas. Por nossa sorte, ferramentas de IA facilitam o processo de resumo das entrevistas de modo que isso se torna uma entrega a mais ao longo do processo do fazer da pesquisa.
Existem várias maneiras de fazer isso: em algumas ferramentas você pode criar templates prévios para uma entrevista com prompts já direcionados aos tópicos principais do seu roteiro. Então imaginemos que você vai fazer uma pesquisa sobre a preferência de marcas de chocolate e você dividiu o seu roteiro em blocos 1) atuação do cliente; 2) uso e consumo de doces no geral; 3) preferência de chocolate. Você pode deixar pré-definido que cada um desses blocos trará certas informações a partir de prompts escritos por você, de modo que esse template te retorna um resumo personalizado logo que você finaliza a entrevista.
Após a entrevista você pode copiar e enviar para seus stakeholders ou colocar no canal de slack designado àquela pesquisa. Claro, não se esqueça de lapidar e revisar o conteúdo antes!
Se você não tem acesso a ferramentas externas, que normalmente são pagas, é possível também fazer bastante coisa bacana com o Gemini. Recentemente o Google lançou o Take Notes no Meet, que pode ser usado para realizar transcrição e fazer resumo dos papos. Após uma entrevista, por exemplo, você pode ir no aplicativo do Gemini Advanced, puxar aquele arquivo de transcrição e solicitar um resumo baseado nos tópicos que você orientar via prompt! Acredito que o Copilot também tenha algo similar para quem usa o pacote Office.
Resumos para stakeholders é sempre uma boa prática, com ou sem IA (sempre legal incrementar as entregas e trazer o time para perto do cliente). Agora com o apoio de ferramentas de IA, vejo que meu processo de criação desses resumos acelerou, permitindo que eu invista mais tempo em outras atividades mais profundas, como o compilado de todas as análises.
Todo mundo sabe que fazer pergunta aberta em questionário é uma prática desaconselhada, usada em casos muito específicos por atrapalhar análises e porque pesquisa quantitativa é usada mais para validação de hipóteses. Mas… quem nunca se debruçou em taggeamento de respostas abertas ou precisou avaliar o sentimento geral de uma base a respeito de métricas de NPS? Se você já passou por isso então provavelmente já entendeu onde eu estou querendo chegar.
Com a chegada da IA ficou muito mais fácil fazer essas análises, principalmente com o apoio de ferramentas internas dos pacotes - tanto o Gemini no Gsuite como o Copilot no Office. Diretamente do seu Excel ou Sheets, você pode realizar um prompt robusto para análise de detratores e promotores e seus principais tópicos. Uma boa prática após analisar NPS dessa maneira é conversar com o time de atendimento ao cliente para bater os principais tópicos que surgem em atendimento e garantir que não há desalinhamento com o dia a dia do que é vivenciado na empresa.
No final do dia, você também consegue coletar feedbacks rápidos como “como modelar essa pergunta para que não transpareça XYZ”, e discutir possíveis aprimoramentos em questionários com perguntas mais sensíveis e complexas.
Para pesquisadoras que não estão inseridas em um time de pesquisa, ou se você é a única pessoa da nossa área técnica na sua empresa, é uma ótima ferramenta para aprender e implementar melhorias rápidas quando surgirem dúvidas ou se você quiser validar melhor a sua forma de perguntar ou realizar roteiros por exemplo.
Mas claro, se suas dúvidas forem sobre o negócio e sobre qual decisão o time demandante precisa tomar com a sua pesquisa, o papo tem que ser diretamente com o pessoal de produto real oficial mesmo!
Lembre-se sempre de se certificar que a ferramenta que você está usando é homologada pela sua empresa e que você não está copiando e colando dados sensíveis e jogando no ChatGPT.
Nem tudo é IA. Pense nas ferramentas de IA como apoio que você tem no dia a dia, quando tem que lidar com a celeridade demandada da sua pesquisa sem perder a qualidade da sua entrega. Pense nas coisas positivas que traz para o seu fazer da pesquisa. Você não precisa gastar tempo mais com transcrição de pesquisa, e isso é uma coisa boa. Você pode investir tempo e energia em outras partes estratégicas do fazer e entregar da pesquisa.
E você? Já tem usado IA no seu dia a dia? Quais outros potenciais você vê para essas ferramentas no dia a dia do mundo de UX Research e pesquisa?