Para começar precisamos entender o que é cultura.

Cultura é um conjunto de valores que é aprendido por um grupo de pessoas. Esses valores são construídos na e pela interação, e repassados na e pela interação dessas pessoas. E claro, essa cultura é materializada através das coisas de uma sociedade, sejam hábitos de como comemos, nos vestimos, nos cumprimentamos (2 beijos ou aperto de mão?), como ouvimos música, dentre diversos de outros detalhes que muitas vezes passam despercebidos.

Cultura e as relações de uma sociedade são dialéticas - o que significa que quando uma muda, a outra muda junto. E é assim que chego ao exemplo do post de hoje, sobre como suas roupas estão impregnadas de constrangimentos e crenças culturais, a partir da análise sobre a história do uso de ‘bolsos’ em roupas.

Ontem li uma reportagem da BBC que discorria sobre a (in)existência de bolsos em roupas femininas e isso me levou a um lugar da Clara adolescente que não conseguia colocar tudo que precisava em seus bolsos. A reportagem faz um breve histórico desses artefatos e de quando surge a extinção dos bolsos nas roupas femininas - que passam a valorizar a silhueta vs praticidade.

Há várias outras questões também nessa história, desde mulheres não serem encarregadas de assuntos cotidianos e deixarem nas mãos de figuras masculinas mais capazes aos olhares da época.

É interesse notar como um detalhe tão pequeno como um ‘bolso’ pode carregar tanto sobre a maneira como uma sociedade designa papéis. E como não existe ‘sociedade’ como um ente magnífico, são as pessoas e os valores compartilhados que são materializados na maneira como desenhamos nossa roupa. Claro que há disputas de narrativa sobre, mas acabamos sendo livres para escolher dentre as opções que nos são dadas, mas nem sempre somos livres de estarmos nesse sistema.

Há uma possibilidade infinita de análises sobre as relações da moda com cultura. A questão aqui analisada, sobre bolsos, se relaciona a outros artefatos da moda, como também com a criação de bolsas (tradicionalmente ‘coisa de mulher’), e outros itens que podem ser considerados menos práticos.

Mas há uma luz no fim do túnel, e pelo que a reportagem traz, estamos em uma era onde as grandes marcas e estilistas têm começado a olhar para o bolso como um artefato necessário à praticidade do dia a dia. E temos que acabar com essa de que vestido não pode ter bolso.

E sempre lembrar que, quando for desenhar um bolso em calça ou short considerado feminino, que seja um que caiba pelo menos o maior aparelho celular que está no mercado junto com duas chaves.

E você? Já teve teve algum incômodo com os bolsos da sua calça? Ou a falta deles?