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O fim da escala 6x1, a desigualdade salarial e comportamento no Brasil
Coisas de Sociologia
O fim da escala 6x1, a desigualdade salarial e comportamento no Brasil
Clara Silberschneider
Clara Silberschneider
February 23, 2026
3 min

Por que falar de escala 6x1 é falar de comportamento e cultura de consumo e também falar de desigualdade salarial?

A discussão sobre o fim da jornada 6x1 no Brasil vem trazendo polêmicas desde o ano passado, mas curiosamente existem duas grandes esferas de discussão que não vi em nenhum dos lados - nem nas propostas que apareceram, nem naqueles que são contras, que é exatamente o caráter de desigualdade salarial o caráter cultural.

Comecemos pelo começo. Por que uma pessoa trabalha 6 vezes por semana? Por opção?

A gente sabe que os trabalhadores e trabalhadoras que se encaixam nessa jornada são aqueles com menores salários e empregos mais sucateados, que precisam ralar para sobreviver. Essas pessoas merecem sim descansar e merecem sim trabalhar apenas 5 dias por semanas. Mas a questão aqui não é sobre isso, mas sim sobre: essas pessoas têm condições hoje para fazer isso? O salário médio de uma pessoa que trabalha como caixa de supermercado em Belo Horizonte, por exemplo, de acordo com o Glassdoor é de R$1.400 (com a máxima de 2k), enquanto o salário mínimo ideal para viver no Brasil em 2026 deveria ser de R$7.000 (DIEESE).

Estamos falando de um abismo. Abismo de realidade, de condições, de possibilidades.

Espero que sim, a jornada de 6x1 seja reduzida, mas eu espero que isso seja feito não achando que, ao minimizar os dias trabalhados estaremos automaticamente aumentando a qualidade de vida dessas pessoas. Porque na necessidade, nada impede da pessoa arranjar um bico, um freela, enfim, continuar trabalhando porque as pessoas precisam de dinheiro para sobreviver, alimentar bocas, enfim, existir nessa sociedade desigual.

Claro, isso a gente só conseguirá ver no futuro, mas acredito que ter esse olhar com recorte social e econômico pra jornada 6x1 ajuda a entender que o problema é muito mais embaixo e a buscar entender o contexto e rede onde precisamos interferir como Estado.

Hábitos são difíceis de mudar. Mas seriam impossíveis?

Outra questão mais fácil de entender, mas que também não foi trazida à tona é a vida do brasileiro como ela é: sempre tudo esteve aberto. Aos sábados, no natal, nos feriados, aos domingos. Alguns países, como a Alemanha, já se é sabido que domingo você não encontra nada aberto, a não ser nas estações de trem. No natal, se o seu carro quebrar ou precisar ir no mecânico, vai precisar esperar uma semana porque nessa semana é aquela onde a sociedade entende e perpetua que é “para se passar com familiares”.

E por que no Brasil as coisas sempre estiveram abertas?

Conectado ao primeiro ponto, as pessoas sempre precisaram fazer mais dinheiro pra sobreviver por conta das regras do jogo por aqui. Se tem escala 6x1 no Brasil tem gente que tá trabalhando até aos sábados e tem que fazer compra no domingo; as pessoas moram longe de suas casas e durante a semana precisam se deslocar até 3 horas para chegar ao trabalho nem sempre chegam em horário - ou disposição - de fazer compras. E claro, é um hábito que permeia a sociedade brasileira como um todo.

Vi essa semana que o estado do Espírito Santo vai instaurar a partir do dia 01 o fim da jornada de supermercados aos domingos. Parabenizo o estado do Espírito Santo nessa mudança institucional, e fico curiosa para saber como será o desenrolar de tudo isso. Espero que tenham pessoas que estão pensando nessas consequências do lado de lá. É sempre uma coisa difícil mudar comportamentos que são acreditados por muito tempo em uma sociedade, mas talvez não seja impossível.

Existem muitos benefícios com o fim da escala 6x1, um deles é exatamente o relato do dono do supermercado na reportagem, que assim como já vi pesquisando donos de estabelecimentos, sofrem ao tentar encontrar alguém que queira trabalhar aos domingos por exemplo.

O modo de se relacionar com trabalho mudou. Temos muito mais possibilidades de trabalhos flexíveis onde somos “donos de nós mesmos” e existe uma geração Z que já chegou buscando relações mais objetivas e menos familiares.

A busca por uma alternativa à escala 6x1 não vai ser virar uma Alemanha, mas vai ser entender como o Brasil, com nossas características únicas de comportamento e desigualdades sociais, vai se beneficiar de modo que essas pessoas trabalhadoras realmente possam desfrutar do descanso merecido e que isso vá deixar todo mundo mais feliz. Pode parecer ingênuo, mas eu nunca entendi como que as pessoas não entendem que duas pessoas mais felizes fazem mais pessoas felizes, e assim por diante.

Agora, temos que entender que essa discussão do fim da escala 6x1 não começa nem termina em apenas os dias de trabalho trabalhados, mas que existe um arcabouço social e econômico por detrás que apoiam as estruturas a funcionarem como funcionam hoje. E para qualquer ação ter sucesso, elas precisam entrar na conversa.


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